Por: Benigna Soares - Abrajet Pará
Para mostrar que essa iniciativa é possível a Companhia Paraense de Turismo (Paratur) e a Suriname Tourism Foundation (STF), órgãos oficiais de turismo do Pará e do Suriname respectivamente vêm realizando viagens de familiarização (Fam Trip e Fam Tur) com profissionais de turismo e de comunicação entre os dois países, a exemplo do que ocorreu entre os dias 27 de outubro e 3 de novembro último, durante a realização, em Paramaribo, do III Festival de Turismo do Suriname. Jornalistas especializados em turismo, técnicos, empresários, consultores, agentes de viagens e outros formadores de opinião representaram o Pará no Fam Trip.
Já no terceiro dia a comitiva do Pará, juntamente com a da Guyana Francesa e outros que se juntaram ao grupo, foi convidada a embarcar no aeroporto de Kajana, a cerca de 20 minutos de Paramaribo, para conhecer aldeias quilombolas no coração da floresta. A viagem durou cerca de 50 minutos em um pequeno avião e revelou uma natureza ainda quase intacta, exuberante às margens do caudaloso Grand Rio. No trajeto clareiras na floresta revelam que além do turismo, uma outra atividade atrai trabalhadores do mundo todo: os garimpos, que fazem do ouro um elo forte da economia local mas que precisa de um olhar atento das autoridades pelas conseqüências sociais e conflitos que gera, inclusive entre garimpeiros do Pará e do Suriname.
Outro espetáculo aos olhos dos visitantes é a vista aérea do lago artificial Brokopondostuwmeer, um dos maiores do mundo, com área de 1.560 km², resultado da construção de uma barragem no rio Suriname entre 1961 e 1964 para produção da eletricidade que abastecia empresas beneficiadoras de bauxita.
Aldeias quilombolas e indígenas: interação com a natureza
O chefe ou capitão de Ston Hoekoe, Hendrik-Fedries, 71 anos de idade, recebeu a comitiva em seu simples casebre, feito de madeira, barro e palha, um padrão na aldeia. Ele contou que a maioria dos jovens e adultos deixou a comunidade para buscar estudos e trabalho na cidade. Restaram os idosos, mulheres e crianças, com a missão de manter viva as tradições de seus antepassados, escravos que foram para lá há cerca de 300 anos. Na pele a cor negra, símbolo da África que procuram manter viva em seus corações.
Hendrik-Fedries acredita que o turismo pode levar maiores investimentos ao lugar e também às comunidades vizinhas, que abrigam aproximadamente 800 quilombolas. Os turistas são recebidos cordialmente e com muita simpatia, desde que, ao desembarcar no lugar respeitem a regra de, ao passar na frente da “Casa dos Espíritos”, separem-se mulheres para um lado e homens para o outro e na saída experimentem a ardente e deliciosa cachaça servida pelo simpático chefe.
Subindo pelo Grand Rio mais uns dez minutos de canoa motorizada a comitiva chegou ao Awarradam Jungle Lodge, localizado em uma pequena ilha (Awarradam). Lá o turista é presenteado com uma das mais belas paisagens do Suriname. Se não bastasse a beleza das águas transparentes, as corredeiras e o conforto dos alojamentos, os visitantes ainda são recebidos por mulheres nativas, caracterizadas, que dão boas vindas cantando no dialeto local. Elas também comandam o cardápio e o atendimento do restaurante do resort, onde o carro chefe sãos peixes da própria região. A mão de obra é quase cem por cento de nativos. Um pacote completo, incluindo transporte aéreo e acomodações nas dezenas de chalés, por uma semana, pode sair por menos de 540 euros.
Ston Hoekoe e Awarradam fazem parte da área Lagu, que possui ao todo oito aldeias, entre elas Bendiwata, Kuututen, Ligolio, Kajana, Deboo, e Godowata Stonkuku. A maioria aptas a receber turistas. A principal operadora de turismo que atua na área é a Mets Travel e Tours. Ver www.surinamevocations.com
Colonização – diversidade étnica e cultural
Com a abolição no século XIX veio para a Guyana Holandesa, ou Suriname, a mão de obra da Índia, China, Portugal e Líbia. A colonização se manteve até 1954 e a independência oficial do Suriname só ocorreu vinte anos depois. Entretanto, em 1980 um golpe militar colocou no poder Desi Bouterse e a ditadura ali não foi diferente do que ocorreu em todos os países com governos similares. Em 1987, a Frente para a Democracia e o Desenvolvimento derrotou os militares. No ano seguinte foi eleito Remsewak Shankar, que formou um governo multirracial, mais foi derrubado em 1990. Com a pressão internacional, em 1991, foram realizadas novas eleições e a paz se restabeleceu, ou melhor, foi conquistada aos poucos.
Uma tarde dedicada às borboletas e ao patrimônio histórico
Nos dias que se seguiram o governo do Suriname proporcionou aos participantes do Fam Trip inúmeros outros passeios turísticos, como ao Neotropical Butterflay Park, um parque ecológico que funciona como criatório de borboletas de diferentes espécies, exportadas para Europa e América Central. O lugar, que também abriga espécimes raras de tartarugas, cobras, aves e variedades de plantas, encanta pelo carinho com que as larvas, as lagartixas, os casulos e as coloridas borboletas são cuidadas pela família Eriles.
Uma série de city tour´s por Paramaribo e cidades vizinhas revelou o cuidado da população com a preservação do patrimônio histórico. A maioria dos palacetes e casarões antigos abriga órgãos governamentais e estão intactos em sua estrutura arquitetônica. Em Paramaribo é possível encontrar uma secular mesquita erguida bem ao lado de uma sinagoga, símbolos da harmonia que hoje fortalece cada vez mais o país, que abriga uma pequena população de 500 mil habitantes e cuja economia é sustentada pela exportação de bauxita, ouro, óleo e petróleo.
Forte importador de produtos industrializados, o Suriname abriga muitos brasileiros, que lá possuem bairros próprios e se dividem entre a mão de obra de restaurantes, comércio, mercado informal e garimpos, mais procurados pela dificuldade dos brasileiros de se inserir em outras áreas por não dominarem os idiomas do país. Para o diretor da STF (Fundação de Turismo do Suriname), Armand Li—A-Young, um dos poucos aspectos de fragilidade na parceria do PTCA com o Brasil.
“Hoje 70% dos brasileiros que chegam aqui buscam trabalho. Só 30% são turistas”. Conta Armand, para quem “é preciso divulgar o Suriname aos brasileiros e o Brasil ao Suriname como opção de turismo barato e acessível”. Para ele é preciso acabar com a imagem de que o país é recanto para a prostituição e o garimpo somente. Empreendedor, Armand sabe que outra realidade está sendo fortalecida na área do comércio e do turismo. Para aproveitar, basta ficar atento à necessidade de capacitação profissional. Foi o que fez o brasileiro de Fortaleza (CE) Carlos Alberto Ribeiro. Formado em Gastronomia, em Administração e em Marketing e Publicidade, hoje ele é um funcionário exemplar de uma cadeia de restaurantes de comidas típicas brasileiras no Suriname. “Aqui existe um preconceito com o brasileiro que representa mal o Brasil. Nosso grupo veio de Santa Catarina há 10 anos e teve que conquistar espaço, provar que somos capazes”. Disse Carlos, em seu espaço gastronômico instalado no Festival de Turismo do Suriname. Cerca de 20 brasileiros trabalham para o grupo.
Cemitérios sagrados e montanhas de ouro são atrativos que encantam
A montanha guarda outras histórias, como a dos mais de 30 chineses mandados até lá para cavar um túnel e explorar ouro, minério ainda hoje encontrado em grande quantidade. Todos foram enterrados vivos após um desabamento do túnel. É do alto do montanha também, que dá para visualizar quase todo o vale e a Vila Herittage. Lá fica o misterioso cemitério dos antepassados, com suas covas separadas em áreas reservadas para colonizadores e escravos, cada uma com dezenas de outras “estórias” de mistério e crenças.
Um dia e o lugar tornou-se inesquecível para a comitiva, recebida à noite em Paramaribo em um restaurante indiano, onde a variedade de peixes, legumes e pimentas dão a dica necessária para quem aprecia essas variedades, tão ricas quanto a quantidade de nacionalidades dos freqüentadores do lugar, turistas de vários cantos do mundo que compartilham a rotina dos moradores da festiva Paramaribo, onde em plena praça se pode assistir a uma cerimônia de casamento indiano, apresentação de orquestras sinfônicas ou mesmo a exibição de potentes carros importados por jovens que ocupam as ruas ouvindo música e “trocando idéias” nas praças, esquinas e avenidas. Uma outra dica nas noites do Suriname é ir ao cinema, teatros ou, para quem aposta na sorte, a um dos inúmeros cassinos autorizados.
Dolphin & Sunset e muitas compras
Ainda no pacote do Produto Turístico Combinado Amazônia o Suriname oferece uma infinidade de opções de compras, seja nas feiras, área de comércio popular ou nos grandes shoppings, localizados nos bairros nobres das principais cidades, principalmente de Paramaribo. Gêneros alimentícios, roupas, lembrancinhas, música e outros produtos podem ser obtidos a preços bem em conta. Uma boa dica é a compra de jóias em ouro, encontrado facilmente e com bons preços já que o país é um grande produtor.
Ao final da tarde, a dica é a observação de golfinhos no rio Suriname, onde existem entre 1000 a 1250 animais. Um show à parte ofertado pela natureza e por boas operadoras de turismo, como a Waterproof Tours Suriname. O roteiro, denominado Dolphin & Sunset, permite que, após cruzar o rio assistindo a um inesquecível ballet de dezenas de golfinhos, é hora de apreciar o por-do-sol no píer da pacata vila de Commewijine, excelente lugar para caminhadas pelas áreas de cultivo de frutos e legumes. Lá vivem cerca de 250 pessoas, a maioria indianos. Para terminar o dia, mais tour gastronômico. Desta vez no Palm Palace, restaurante especializado em comidas e bebidas chinesas.
A contribuição dos judeus
“Aqui no Suriname temos a facilidade de falar o mesmo idioma (holandês), nos sentimos em casa”. Contou Aus, ao lembrar que outra facilidade é o acesso aéreo, já que existem vôos diretos do Suriname para Amsterdã. Quanto ao Brasil ele afirma que procura pelo contato com a natureza, exceto pelas praias que ele prefere freqüentar na Turquia pela facilidade de acesso e baixo custo. “O Brasil tem um povo alegre e uma cultura muito rica, como vimos em Paratí e na Bahia. Isso é muito bonito”.
São turistas como Marie e Aus que os parceiros do PTC procuram. Dispostos a viajar em busca de riquezas culturais, natureza e atrativos diversos, facilmente encontrados na Amazônia. Eric Madeleine, diretor do Comité Du Tourisme De La Guyane, comemora a parceria que também envolve o seu país, a Guyana Francesa. Eric diz que um dos principais avanços do programa será a formalização do P.O. Amazônia, programa operacional financeiro que garante investimentos internacionais nas ações operacionais do Programa Turístico Combinado Amazônia.
Conheça mais em: