
A sociedade brasileira vive um momento singular de transição. As mudanças políticas e sociais ocorridas há décadas, promovidas pela força do voto popular num processo lento e gradual de consolidação da nossa democracia dão hoje, cada vez mais, voz e visibilidade às vítimas de injustiças. As mudanças tecnológicas e o processo de globalização econômica também criaram mudanças nas formas de interação social, principalmente na comunicação. Tais mudanças trouxeram particular impacto às profissões ligadas a esse segmento do conhecimento humano.
Se por um lado o acesso à informação e a facilidade de comunicação deram às classes antes excluídas a oportunidade de revelar suas revoltas e indignações, por outro, os profissionais da área se viram no dilema de reaprender a lidar com a prática comunicacional. Agora, sem parte do deslumbre e do glamour de uma profissão que sempre fez parte das estruturas dominantes na sociedade moderna, a imprensa e, particularmente, os jornalistas profissionais, se veem diante da dura realidade de enxergar a si próprios como classe trabalhadora.
Uma classe que não é pouco para a sociedade. Que participa efetivamente da legitimação (ou da negação) das políticas públicas e das formas de interação social, não somente por meio da imprensa, mas também com a produção de conteúdo de entretenimento, de cultura, na gestão pública e na produção acadêmica. A comunicação não é mais acessório, ela se posiciona agora de maneira estratégica e central no jogo das interações sociais. Mas essa mudança ocorreu muito rapidamente e a ficha demorou a cair.
Se hoje em dia qualquer cidadão comum pode fazer a sua “própria notícia”, nos vale ainda mais a capacidade crítica de avaliação e de negociação junto às estruturas de poder. É nesse sentido que eventos como a recente greve promovida por jornalistas do Diário do Pará, e conduzida pela Diretoria do Sinjor-PA (com apoio jurídico e material aos grevistas durante as negociações da data-base), são históricos nessa transição em nosso Estado. Não sem dissidências, é verdade, como demonstram os posicionamentos públicos que começam a emanar de parte do movimento grevista que agora critica a atual gestão do Sindicato.

A crítica é saudável. Todo bom jornalista sabe disso. Este sempre foi e deverá permanecer sendo elemento básico de nossa prática profissional, e não devemos temê-la. Não houve consenso na greve do Diário do Pará, como poucas vezes houve consenso na prática sindical recente envolvendo a categoria dos jornalistas. Mais do que isso, houve pouca participação dos trabalhadores da nossa categoria. É preciso dizer isso, pois, a verdade não se pode esconder. E a busca da verdade, essa também é uma prática que deve permanecer na base do exercício de nossa profissão.
Mas de qual verdade estamos falando? A manchete sensacionalista dos tabloides é, sabemos, uma visão (versão?) dos fatos. O mito da imparcialidade jornalística ganha terreno na ignorância e na ingenuidade pueril. A falta de criticidade substitui uma subjetividade imparcial por uma objetividade parcial, como mostram os casos de editorialização política que certos veículos adotam hoje em dia. Se não houver consciência crítica e planejamento, tudo pode mudar para permanecer tudo do mesmo modo, ou pior. Isolarmos, desagregarmos não nos parece uma boa estratégia para este momento histórico.
As muitas violências que se praticam contra profissionais da nossa área demonstram a necessidade do olhar crítico sobre a sociedade, casado com a consciência política de classe e de união. Basta lembrar os ocorridos recentemente nas manifestações nacionais, e, ainda mais próximo, a violência que se repetiu em Ananindeua no último sábado, quando o repórter Márcio Lins e o cinegrafista Jairo Lopes, foram agredidos por policiais militares. Fatos que evidenciam que nossos adversários estão nas diversas e complexas relações sociais de classe, de ideologias e de governos.
A despeito da necessidade de uma postura crítica (a crítica é a arte de discernir, definiram os gregos), no mundo das redes sociais, do isolamento e da atomização do indivíduo “universal”, ser aceito é quase um imperativo social. A essa necessidade afetiva de compartilhamentos, a crítica mal posicionada parece não fazer bem a quem não viveu os momentos mais intensos de um jornalismo vivo, dinâmico, combativo e criativo.
Entre um extremo e outro, de radicalismos que promovem cada vez mais agressões e intolerância, deve haver um ponto de equilíbrio. Equilíbrio que nos permita vencer nossa subjetividade emocional e trazer ganhos políticos reais a uma categoria há muito fragilizada. Isso não é retrocesso nem covardia. É inteligência e coerência como os novos tempos. Só assim, nós, da chapa Sou Mais Sinjor, acreditamos que será possível agregar forças e restabelecer nossa potência na sociedade, lutando não somente pelos nossos direitos de classe, mas também por uma sociedade mais justa e equilibrada, onde o direito à expressão seja tão importante quanto o direito à vida digna e ao trabalho justo.
Esta sempre foi a nossa luta. Se ela não se consolidou antes tão firme e fortemente, e no tempo que as vicissitudes da juventude exigem, é por que este é o momento. Não nos cabe agora apontar o dedo na cara dos colegas, quando as oligarquias que nos atacam acabam por se fortalecer dessa prática. É hora de nos solidarizarmos e socializarmos a consciência ampla do nosso papel social. Para isso, que venha o debate saudável, onde poderemos crescer e ganhar força. E que pereça a injúria e a difamação que espelham a prática de muitos patrões dentro das redações, a coagir profissionais e a sociedade em favor de seus próprios interesses, econômicos ou políticos. Não reproduzamos essa prática violenta e mesquinha que a sociedade brasileira, na era da comunicação, vem negando há tempos. As manifestações de junho de 2013 demonstram isso. Essa luta sempre foi nossa e quem está conosco nunca fugiu à luta.
E porque este é momento de renovar, somar e fortalecer a luta, nós todos Somos Mais Sinjor.
Belém, maio de 2014.